Modelagem manual como instrumento de projeto – Artur Rozestraten

Artur Rozestraten é arquiteto e urbanista, doutorando na FAUUSP com pesquisa sobre as relações entre o projeto de arquitetura e a modelagem tridimensional.

Passados quase quinze anos da introdução da informática na arquitetura brasileira é possível, hoje, fazer uma reflexão mais madura sobre o papel das representações eletrônicas no desenvolvimento de projetos arquitetônicos.
Ao longo destes anos, a prática cotidiana do projeto auxiliado por computador permitiu um conhecimento mais realista de suas possibilidades, e também de suas limitações.
Se no início dos anos 90 o debate sobre o tema articulava-se entre posições extremas – contestação e recusa, de um lado, e aceitação e apologia, de outro – atualmente os debates convergem para a configuração de relações complementares entre o desenho feito à mão, a representação eletrônica e a modelagem manual. […]
O termo modelagem é dúbio. Tanto pode ser uma operação de representação da forma tridimensional no plano (como um desenho em perspectiva, por exemplo), quanto pode ser uma composição tridimensional no espaço (1). Ou seja, a representação de uma arquitetura numa superfície plana (numa folha ou numa tela) por meio de recursos artísticos de perspectiva é modelagem. Assim como também é modelagem a construção de uma maquete de arquitetura. No senso comum, no entanto, predomina em português a noção de que a modelagem é uma ação formativa essencialmente material e tridimensional.
Nos softwares 3D o termo inglês modelling coloca-se com a mesma ambigüidade. Na tela do computador ou em uma impressão o 3D modelling é sempre uma representação plana de formas tridimensionais. Mas em saídas tipo CAM (Computer Aided Modelling) a modelagem eletrônica gera de fato um objeto tridimensional. […]
O sentido do termo integrado eido-poiéo pode ser aproximado então como “criação da forma”, “ação formativa”, “formatividade” (3), etc.
A modelagem manual, entendida como eido-poiéo, distingue-se nitidamente do model-making convencional – entendido como a simples “confecção de maquetes” – pois este último, em geral, visa apenas um produto final “de apresentação” de um projeto já pronto que, quase sem exceção, foi desenvolvido exclusivamente por meio de desenhos.
Uma das características da modelagem aqui proposta como eido-poiéo é sua integração no processo projetual desde os primeiros momentos. Integração esta articulada ao desenho feito à mão e às representações eletrônicas, de maneira a constituir um espaço de experimentação tridimensional que permita constantes alterações, interferências e revisões de projeto. Esta modelagem investigativa produz modelos provisórios, efêmeros, transitórios, que podem ser feitos com materiais de ocasião diversos, integrados num processo relativamente grosseiro, sem detalhes e sem acabamento, como esboços tridimensionais de uma “forma em construção”.
Ao longo da história da arquitetura, na produção arquitetônica que pretendia ultrapassar estilos, modismos e modelos prévios em prol de novas soluções espaciais e construtivas, a modelagem tridimensional como eido-poiéosempre esteve integrada como um recurso indispensável de projeto.
Há diversos exemplos deste uso criativo da modelagem desde a Antigüidade romana (4), passando por Brunelleschi (séc. XV), Michelangelo (séc. XVI), El Lissitsky, Gerrit Rietveld e Moholy-Nagy nos anos 20, Buckminster Fuller, o grupo Archigram e Constant Nieuwenhuis entre os anos 50 e 70, e, mais recentemente, como pôde ser visto na última Bienal de Arquitetura em São Paulo, Enric Miralles e Christian de Portzamparc.

Texto sobre modelagem adaptado do site: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp236.asp

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